Uma das coisas muito importantes para nós da Ilha Dodô, desde a concepção, é que nossas roupinhas fossem unisex sempre que possível. Vestidos, por exemplo, sabemos que não serão usados por meninos, por uma questão cultural muito forte (embora nada impeça o uso, na realidade :)), mas fora esta peça específica, cremos que todas as roupas podem e devem ser usadas por meninos e meninas.
Em primeiro lugar porque a distinção de cores por gênero é decisão deliberada dos pais, e queremos provocar a reflexão, fazer pais e mães pensarem sobre o assunto: por que tenho medo de vestir meu menino de lilás? Por que insisto em vestir minha menina de pink? Todas as cores são belas, e os bebês ficam lindos em todas elas. Por que abrir mão de algumas? A infância é justamente o período de experimentação, aprendizado e exposição a tudo que o mundo tem a oferecer. Por que limitar o universo de gosto e estilo dos nossos filhos em função de uma escolha absolutamente arbitrária de cores por gênero?
E em segundo lugar, porque roupas de bebê são caras e duram pouco, eles crescem muito rápido, é importante poder reutilizar sem restrições! O ideal é que as roupas sejam de excelente qualidade (e as nossas podem ser lavadas sem medo, lavei todas as do Otto várias vezes e continuam lindas) e que também possam ser doadas para bebês de outro sexo, ou mesmo guardar para o irmãozinho/inha no futuro.
Lembram dos 3 R da sustentabilidade? Nesta ordem de prioridade: Reduzir, Reusar e Reciclar. Comprando artigos de melhor qualidade, não é preciso comprar com tanta frequência e se pode reusar (seja doando ou vendendo). E roupas de bebê podem ser doadas por gerações — eu ganhei roupinhas usadas da década de 80! Em ótimo estado, e lindas. Usei todas.
Queremos que as roupinhas que forem compradas da Ilha Dodô em 2012 vistam bebês — meninas e meninos! — em 2022
Para poder melhor explorar — e explicar — nossa proposta de roupas unisex, chamamos a amiga Dra Liliana Seger para conversar conosco, clientes e amigos durante o lançamento da Ilha Dodô dia 25 de Janeiro sobre a questão do gênero em bebês, como uma oportunidade de reflexão. Foi um bate-papo muito tranquilo e divertido, ela nos apresentou algumas ideias para que discutíssemos, pensássemos sobre o assunto. A apresentação completa está aqui para download.
A conversa foi livre, e muito rica, não é possível retomar todos os comentários, mas o que mais me chamou a atenção foi que todos tinham uma historinha de segregação por gênero para contar, algum incômodo com a “ditadura” da separação de cor e estilo por sexo do bebê. Seja nos presentes que ganhamos quando esperamos o bebê ou na compra em lojas é inevitável a pergunta inicial (inclusive online): “menino ou menina”?
A resposta “não importa” simplesmente não parece aceitável ou possível. E ai daqueles que ousam vestir seus meninos de rosa (passamos pela experiência. Foi antropologicamente interessante observar as reações das pessoas), suas meninas de marinheiro, ou coisa parecida!
Mas afinal, quando é que o gênero se faz presente na realidade da criança? Segundo aprendemos no nosso bate-papo, somente por volta dos 4 anos. E ainda assim, é percebida a diferença, o que não implica necessariamente o rótulo. Impor rosa como “cor de menina” e azul como “cor de menino” é tão legítimo quanto dizer que mulheres são donas de casa e homens são empresários. São apenas opções, pré-definidas e formatadas por nós mesmos, rótulos que usamos para categorizar o mundo. Ora, quem quer rotular uma criança desde o momento em que nasce?
Concluímos na conversa que o principal motivador da segregação por gênero é o medo. Medo dos nossos filhos serem homossexuais, é isso mesmo, e a culpa ser nossa! Quem já não ouviu algo como “menino de rosa? o menino vai virar gay”? O medo é legítimo, seja por preconceito ou simplesmente por querer evitar que nossos filhos passem por dificuldades por serem diferentes do que esperam deles. O ponto é: ser homossexual é mesmo uma opção? Será que pela simples escolha de cores podemos modificar a orientação sexual de alguém?
Encontramos alguns artigos interessantes relacionados a estas reflexões, que queremos dividir com vocês. Espero que gostem e sirvam para pensar
- “Mommy, they are just like me“, em Inglês, sobre um garoto de 6 anos que é fã de um personagem gay de Glee e que se apaixonou por um coleguinha. O relato dos pais é lindo, lúcido e muito comovente (versão em Português no Facebook)
- Pais criam filho sem revelar ou distinguir seu sexo por 5 anos: os pais criaram o menino sem especificar seu sexo, vestindo roupas de menino e menina alternadamente, sem dizer a ninguém da família se ele/ela era menino ou menina. Radical!
- Menino usando sapato de menina (somente em Inglês), pode? Segundo a mãe, não só podia como achou divertido e colocou no Facebook. Até que dezenas de pessoas começaram a criticar a mãe, a foto, o fato. A frase inevitável está lá “o menino vai virar gay!”. Será?
Temos cá nossas opiniões, mas fiquem à vontade para comentar e contribuir para a reflexão. Com respeito, com carinho, sem preconceito. Porque aqui na Ilha Dodô, além de não separar itens por gênero, temos um lindo arco-íris alegrando nosso blog. Não é homenagem, é só alegria mesmo. Mas sim, somos gay friendly, hoje e sempre.
Eu já amo a Ilha Dodô. E vou torcer sempre para que ela seja acessível para todas/todos que precisarem dela. Muita saudade do Gabis.
A Ilha Dodô ama você também, querido. <3 <3
Esse negócio do “virar gay” seria até engraçado se não fosse trágico. Não é algo que se escolha, ou que se “vire” porque colocou o sapato da mãe, meldels!!! Colocar o sapato da mãe só significa que ali há uma criança descobrindo o mundo; no futuro, essa criança vai amar aquele que tiver que amar, homem ou mulher.
Eu quis um guarda roupa (não consigo escrever “guardarroupa”, aff) bem variado e colorido pra Nina, mas sem exageros. Ela tem vestidinhos, calças, bodies, macacões, a maioria bem simples. Muito rosa, muito azul, muito roxo, muito amarelo, muito verde, muito vermelho, e laranja, e até uma ou outra pecinha preta. E quando a visto de azul, minha cor preferida, as pessoas na rua vêm com o “que bonitinhO” até que entram em parafuso ao notar que ela usa brinco. Detalhe, o pai dela toca gaita de foles e usa kilt. O que eu acho o máximo, porque ela vai aprender desde cedo que é muito bobo isso de azul ser “coisa de menino” e de “homem não pode usar saia”.
O que eu mais gostei na Ilha Dodô foi que os artigos são todos simples. De bom gosto, lindos, mas simples. A Nina até tem três ou quatro roupinhas mais ‘elaboradas’, mas juro que tenho dó dos nenês quando os pais resolvem enchê-los de frufrus, laços, etc. A gente já vira meio escravo de dress code quando cresce (afinal, nem todo mundo pode ir trabalhar com a roupa que quer, por exemplo), então pra que amarrar as crianças a isso também?
Joo, muito bem colocado! Sabe que eu nem entrei no mérito dos “fru-frus”, porque creio que isso tem a ver com o gosto dos pais e não exatamente com gênero, mas eu pessoalmente não gosto também. Prefiro roupas simples, assim como prefiro cabelos simples, por exemplo
Engraçado seu exemplo, porque quando vestimos o Otto de vermelho e laranja (nem precisa ser rosa!) as pessoas ficam confusas quando dizemos que ele é menino. E ele tem cabelo curtinho e uma SUPER cara de menino! Parece um condicionamento, é muito estranho. Será que as pessoas se dão conta do quanto isso é limitante e até bobo?
Obrigada pelo comentário, por compartilhar um pouco com a gente. Um beijo!
O Matias tem um COPO rosa. Da Minnie. Ele deu um trabalhão pra tomar líquidos, então quando descobrimos que ele sabia sugar de canudinho, fui na farmácia e comprei todos os copos disponíveis, sem me importar, claro, com a cor, personagem, seja lá o que for. É batata as pessoas perguntarem por que ele tem aquele copo. Uma vez até soltaram o famigerado “tadinho”. Coitado do meu filho porque tem um copo cor-de-rosa? Oi?
E as roupas de menino no mercado em geral são AS MAIS SEM GRAÇA de todos os tempos. Sempre aquelas estampas de esporte com borrados e letras bold.
Tô torcendo pra dar tudo certo e a Ilha Dodô ir ampliando a grade conforme ele vai crescendo. =)
Sil, é ridículo, e eu acredito. Falam TADINHO pro Otto de macacão rosa também, hahahaha! Tenho dificuldade em entender. Como se usar uma determinada cor fosse determinante no futuro da criança, incrível.
A gente vai produzir mais coisas pros maiorzinhos sim, pode deixar! Até porque preciso vestir o Otto também, hahaha! Beijo.
Bela reflexão!
Aliás, lembro que uma vez li isso: “Um jornal norte-americano, em 1918: “… A razão é que, sendo o rosa uma cor mais forte, que denota pessoas decididas e com coragem, ela é mais adequada para o menino, enquanto o azul, que é mais delicado e gracioso, é mais bonito para a menina” [Ladies Home Journal, junho de 1918]”
Ou seja: este lance de cores está só na cabeça do povo mesmo! viva todas as cores!
Li aqui – http://www.sucamodainfantil.com/blog/?p=97
que legal, é interessante observar como mudam os conceitos, não? se a gente ajudar a influenciar algumas pessoas a ousar nas cores com seus bebês já estamos felizes. um beijo!